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ARTIGOS

A morte da salsa
por Abel Delgado 
Cortesia Descarga.com
Tradução de Marina Quintela e Jonas Ribeiro

 

3.
O afro-centrismo 
Isto significa que as raízes africanas estão manifestamente expressas. Como é que os afro-latinos as exprimem? Para os iniciados, uma única palavra: ritmo. Qualquer que ele seja: son, guaracha, bomba ou danzón, os diferentes subgéneros na música afro-latina estão unidos pelo ritmo. Este é forte e sincopado e está presente na dança, elegante no danzón, sensual no guaguancó. Esta música está concebida para vos fazer mexer. E isto acontece devido à poliritmia: o canto das congas no guaguancó, o bongó, o da clave no tradicional changui, o das congas e dos timbales nos grupos ou os tambores bata [1]. Eles podem temperar o fraseado das congas. As percussões têm calor e vida, dominam e estalam. Vocês podem perceber tudo isto no bongó do Septeto Piñeiro, no  bongó de Papa Kila no conjunto de Arsenio Rodriguez nos anos 30/40, na conga de Patato Valdez no seu trabalho para o Conjunto Casino nos anos 40, nas bombas ritmadas de Cortijo nos anos 50, nos timbales impetuosos de Manny Oquendo com “La Perfecta” nos anos 60, nas mãos duras de Barretto nos anos 70, e nas percussões revolucionárias de Giovanni Hidalgo nos anos 80. Agressivas e criativas, estas percussões são uma parte essencial desta música e dão-lhe uma filiação directa com África. Mesmo nos boleros, onde o amor está no centro, vocês percebem claramente os percussionistas, que trabalham para acrescentar à melodia do cantor linhas rítmicas subtis. Ouçam qualquer um dos boléros de Tito Rodriguez, mesmo os “sufocados” nos violões, como “Mio” ou “Inolvidable”: as congas e os bongós estão sempre presentes para guiar os dançarinos. Talvez fosse sensato retirá-los, ou então baixar o som para não interagir com o escoamento da água-de-rosas. Foi o que fez Luís Miguel quando gravou boléros para os seus cds «sentimentais». Só que Tito, Beny, Tito Puente e os grupos de Salsa que tocam boléros não o fazem. Porquê? Porque o ritmo, quer gentilmente batido ou explosivo numa melodia mais rápida, é essencial para este tipo de música.
O afro-centrismo, numa perspectiva da Santeria exprime-se de outras formas nesta música. Desde o início da música afro-latina, os músicos tocaram ou cantaram os Deuses Yoruba (etnia da Nigéria, cujos cultos vieram com os escravos, NDT) na religião Santeria. A Santeria é uma versão afro-cubana da religião politeísta dos Yoruba da África Ocidental. As crenças principais desta religião manifestam-se pela invocação dos deuses para ajudar os humanos na sua vida diária, através de rituais, de adivinhações, de sacrifícios, intervalados com tambores e com cantos. As canções que dizem respeito a esta religião abundam na música afro-latina. “Bilongo”, conta como é que um homem foi subjugado por um filtro de amor que uma mulher deitava na comida e foi gravado dezenas de vezes desde o início dos anos 40 por toda a gente, desde o Conjunto Casino a Tito Rodriguez, passando por Eddie Palmieri e Ismael Rivera. Há outros exemplos como “Mayeya”, gravado pelos primeiros grupos de Son, o grupo “Anacaona”, composto apenas por mulheres, e a Sonora Poncena nos anos 70.
Changó, o deus dos tambores, aparece em dezenas de canções: “Devuélveme la voz”, tocado por Héctor Casanova e Monguito Santamaria, é disso um exemplo notável. Ray Barretto gravou em 1972, “El Hijo de Obatalá” no seu álbum “Indestructible” e Héctor Lavoe gravou “Yemayá y Ochún” no início dos anos 80. Os deuses aparecem na música por várias razões. Muitos músicos acreditam neles e são iniciados. Ou então consultam praticantes num qualquer momento das suas vidas. Numerosos latinos crêem neles também, e as suas canções reflectem este interesse. E, ainda mais importante do que isto, as canções têm laços directos com a herança africana desta música.
É por isso que os salseiros conservam frequentemente as músicas derivadas do Son para prestarem homenagem a um deus, substituindo a sua cadência própria para adoptarem um ritmo 6/8 [2], ritmo que se aproxima do dos cantos Batá (utilizo o termo canto que me parece o mais apropriado; a um ritmo específico corresponde um deus particular e, além do mais, conga significa canto em língua bantoue, NDT), utilizados para invocar os deuses da Santeria. Depois, os cantores prosseguem as invocações. Invocarão eles efectivamente os deuses em pleno concerto? Evidentemente que não. Eles exploram uma parte essencial desta música devido à sua energia única, mostrando ao público de onde ela é originária e do que é que trata. Ouçam “Changó”, por La Lupe Live no Carnegie Hall ou “Un Toque de Bembé”, cantado por Célia Cruz. São as reafirmações das raízes afro-cubanas desta música.

NOTAS
[1] bata : Tambores de origem africana, utilizados nas cerimónias religiosas da Santeria. Têm a forma de ampulheta, com uma pele esticada em cada extremidade, e tocam-se apoiados sobre as coxas com uma mão em cada pele. São em número de 3 (iya, itotele e okonkolo).
[2] ritmo 6/8 : Ritmo originário de África, em três tempos (ou mais precisamente em seis tempos, três tempos desdobrados).
 

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Benny More





 

 

 

 

 

 

 

 


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