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ARTIGOS

A morte da salsa
por Abel Delgado 
Cortesia Descarga.com
Tradução de Marina Quintela e Jonas Ribeiro

 

4.
Os salseiros e a improvisação 
O segundo grande princípio desta música é a improvisação. Quer seja utilizando instrumentos de sopro, percussões ou a voz, os músicos encontram uma forma de se exprimir e de comunicar com o público. Na música gravada, os cantores dos primeiros grupos de Són, os “pais” dos grupos de Salsa, improvisavam as palavras. Por vezes seguindo um riff repetitivo segundo a tradição espanhola da «décima» [3] ou através dos coros com pergunta/resposta, o que é ainda um reflexo do princípio do afro-centrismo. Os percussionistas sempre executaram solos; na rumba, o tocador de «quinto» [4] sempre fez improvisações («lick», em gíria, é uma frase de improvisação, NDT) sobrepostas aos ritmos entrelaçados dos outros percussionistas. Isto continuou com o Són e as músicas dele derivadas. 
Não há muitas provas registadas de tudo isto devido à pobreza das gravações antes dos anos 30/40. Vocês podem ouvir Chano Pozo num solo do álbum de um concerto com Dizzy Gillespie em 1948, “Manteca”. Existem outros solos de percussões bastante curtos nos registos dos anos 40, mas é preciso estar-se muito atento para conseguir percebê-los devido à sua breve duração. A tradição oral e os heróis folclóricos como Chano Pozo, Roncona, Macho Mumba e outros, indicam claramente que a improvisação não apareceu apenas com os primeiros registos desta música. Já era assim antes disso e por isso mesmo é que estes heróis se tornaram heróis: porque eram grandes solistas.
A influência do Jazz ainda encorajou mais a improvisação e melhores tecnologias de gravação permitiram prolongar as pistas nas quais os músicos puderam desenvolver-se. Registos mais tardios nos finais dos anos 40, depois 50, associavam instrumentos de sopro, piano e obviamente as percussões. Mongo Santamaria, Willie Bobo, Patato e outros reuniram-se para produzir «Puente in Percussion», um álbum que expunha claramente a importância respectiva dos princípios da improvisação e do afro-centrismo. E, a partir daí, os exemplos proliferam: Papo Lucca e os fogos de artifício do piano de Palmieri em dezenas de canções; as palavras extraordinárias de Héctor Lavoe em “El Cantante” e em muitas outras canções; a agilidade vocal de Óscar d’León num concerto realizado em Matanzas, Cuba, em 1983; o admirável solo de trompete de Chocolate Armentero em “Bilongo”; a versão de Palmieri; o trombone de Barry Rogers em numerosas gravações de Palmieri. Digo-vos todos estes nomes de cabeça e sem pensar muito, mas é evidente: esta música tem uma importante tradição de improvisação.

NOTAS
[3] decima : Forma codificada da poesia espanhola. Não sei bem se se trata de versos de 10 sílabas, ou de uma forma definida, como o soneto na poesia francesa. É uma forma clássica de improvisar as palavras de uma canção. 
[4] A conga mais aguda.
 

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