ARTIGOS
A
morte da salsa
por Abel Delgado
Cortesia Descarga.com
Tradução de Marina Quintela e Jonas Ribeiro
6. Uma combinação habilidosa
É evidente que estes três princípios não existem de forma separada e independente. Funcionam juntos e, sempre que estão bem combinados, resultam numa música extraordinária. Por exemplo: “El Viejo Barbero”, por Gene
Hernández, “El Santo de Tía Juliana”, por Benny Moré e “El Rey de La Puntualidad”, por Héctor
Lavoe. A força narrativa, a improvisação e o afro centrismo criam uma energia que nenhuma outra música pode igualar. Ela não vos dá apenas vontade de dançar, envolve-vos, eleva-vos e faz-vos sentir cheios de vida. Michael Bolton não consegue isto, Puff Daddy também não e muito menos Jennifer
Lopez, com a sua voz pateticamente débil que tenta fortalecer à custa do Rn’B, nem mesmo o popular herdeiro de Tom
Jones, Ricky Martin.
Regressemos à morte da salsa, começando pelo
afro-centrismo. Deixemos de lado as piadas gratuitas sobre os alvos fáceis que são as pop stars e continuemos: a salsa moderna, em grande parte dos casos, não utiliza estes três fundamentos.
Uma vez mais, não é necessário ser um astrofísico da NASA para tirar esta conclusão: o afro-centrismo desapareceu. Chango poderia bater nas costas de Jerry
Rivera, que «El Niño de la Salsa» não o reconheceria. Os fragmentos de percussões na salsa utilizam sempre as
poliritmias, mas não se destacam verdadeiramente. Os rítmicos são fracos e doces para estarem de acordo com os lamentos e baladas apaixonadas. Se não acreditam em mim perguntem a Eddie
Palmieri, ele disse-o em «Para que Escuchem»: “Los Tambores Están Callados”... Mais do que tirar partido da rica herança rítmica integrar estes diferentes ritmos, combinando-os se necessário em “Bata”
(NDT: ?), os salseiros modernos utilizam a caballo [5] e os ritmos salsa derivados do Son são tocados de forma muito fraca. Nenhum crash de címbalos por Nicky Marrero ou Orestes
Vilato. Nenhuma insinuação de bongó por Roena, apenas muitas percussões misturadas . Para além do facto de aderir à estrutura da balada, esta «sopa» é provavelmente o resultado de os músicos não tocarem em simultâneo. Eles gravam separadamente cada percussão e combinam-nas mais tarde. Não há aquela energia espontânea, não há espaço para a inspiração colectiva. Enfim, não existem grupos nos quais os músicos tenham tempo de se conhecer e de desenvolver uma espécie de complicidade musical; a maior parte dos álbuns produzidos são gravados com «assassinos contratados» que fazem algumas improvisações e depois se vão embora. Isto explica porque é que a salsa de hoje tem um som tão artificial, especialmente ao nível da rítmica.
NOTA
[5] a caballo : ritmo de conga que faz lembrar o ritmo de um cavalo a trote;

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